Mundo afora

Nada acontece por acaso – O dia em que perdi meu voo e conheci D. Julia Gilbert

11 de maio de 2017

Bateu um certo arrependimento em ter sido um tanto quanto desagradável com a atendente da companhia aérea, afinal ela não teve culpa, estava apenas exercendo seu trabalho, tudo bem que ela poderia ter demonstrado um pouco de empatia, já que eu estava exausta da longa semana de trabalho longe de casa, longe do meu namorado, mas se eu soubesse que conheceria a D. Julia Gilbert naquele voo barulhento no qual ela me colocou, juro que a teria agradecido por eu ter perdido a minha conexão, mesmo que ela não tenha sido a culpada e deprivada de empatia, eu ainda assim a agradeceria.

Na verdade episódios como esse, só fortalecem a minha crença de que quanto mais a vida se desenrola, mais certa estou de que nada acontece por acaso.

Fico imaginando o quão difícil deve ter sido para a D. Julia perder a mãe e o marido numa paulada só, quero dizer com 6 semanas de diferença, a causa da morte também não foi paulada, de acordo com a D. Julia ambos estavam doentes à 10 anos e ela cuidou deles por todo esse tempo sozinha, ela confirmou ter sido muito difícil, mas admitiu ter de fato voltado à viver após a partida do marido e da mãe. Passou a viajar, conhecer novos países, ela me contou sobre uma viagem que fez com a filha a mais ou menos 5 anos atrás, onde passaram 3 semanas viajando pela Europa, visitaram a Itália, a França, a Inglaterra e mais dois países que não me vem a cabeça agora, ela descreveu a viagem como fantástica.

Quando perguntei de onde ela tirou forças para superar duas perdas tão árduas, ela disse ter sido uma dor gradativa decorrente dos 10 anos de infermidade da mãe e do marido e só ter de fato sofrido, recentemente com o problema de saúde agora da irmã. Porém, disse que só se permitiu sofrer temporariamente, que literalmente disse a si mesmo que estava na hora de parar de se lamentar e viver a vida antes que chegue a sua vez .

O voo com talvez 35-40 tripulantes, naquele avião mais pra lá do que pra cá e extremamente barulhento que mais parecia estar viajando de trator, durou pouco mais de uma hora e posso dizer que foi uma das horas mais valiosas da minha vida, o brilho nos olhos da D. Julia, o entusiasmo, o senso de humor eram contagiantes, estava exausta quando entrei naquele avião e ainda meio atordoada, tentando recuperar o fôlego por ter corrido por aqueles intermináveis corredores no aeroporto numa tentavida de entrar naquele voo, sentei-me no primeiro assento que vi na frente e lá estava ela, a D. Julia toda simpática e cativante.

A primeira coisa que fiz ao me sentar, foi reclamar por ter perdido meu voo após estar fora de casa entre um trabalho e outro à mais de 2 semanas, mas ela ao me ouvir riu dizendo, “estou fora de casa à oito anos” e logo toda minha exaustão se transformou em entusiasmo e curiosidade ao interagir com aquela mulher tão especial que eu já nem me lembrava, que o voo em qual agora eu estava, tinha como destino um aeroporto com quase 3 horas de distância do meu destino final – casa.

D. Julia morou e trabalhou em Nova Iorque até se aposentar e estava agora animada para voltar para a “casa”, disse que iria visitar o World Trade Center que costumava ser a vista de seu escritório, disse ter participado de inúmeros happy hours com os colegas de trabalho num restaurante no topo das agora desmoronadas torres gêmeas. Acrescentou também não gostar do frio e de nunca ter sentido falta de Nova Iorque desde que deixou o estado, demonstrou uma leve tristeza quando disse estar finalmente voltando para visitar, porém não por uma boa causa, já que a irmã agora não se encontra bem.

Ela falou sobre o marido que partiu à 16 anos atrás com lágrimas nos olhos e não eram de tristeza, ela sorriu a cada pedacinho da história que me contava que o envolvia, repetiu diversas vezes que ele era um bom marido e sobre o quão feliz ele ficou quando ela sugeriu que se mudassem de Nova Iorque para a Carolina do Sul, destino escolhido em comum acordo por ambos após a aposentadoria. Carolina do Sul foi um dos lugares onde seu marido esteve por um período curto aos 17 anos de idade, quando na época era integrante da defesa Naval dos Estados Unidos. Após o relato de D. Julia de que se mudaram para Carolina do Sul em 1989, levando com eles a mãe de D. Julia, eu logo me perguntei qual seria a idade dela e enquanto conversávamos, ela entusiasmada me contou ter 86 anos e eu quase que caio das pernas, não consegui esconder o meu espanto, mas D. Julia não ficou surpresa, disse causar essa reação nas pessoas com bastante frequência.

Eu não tirei meus olhos do rosto dela e sem exageros eu devo ter mais rugas que ela, os olhos lacrimejados com as pálpebras levemente caídas, mostram que longos anos acompanham D. Julia, mas podia jurar que ela tinha uns 60 e poucos anos, ela me agradeceu e me explicou que vive sozinha, que não irá se mudar para um asilo, que não gosta de se relacionar com idosos porque o único assunto são as dores aqui e ali e lembranças do passado, ela não tem paciência para isso, já que a vida é agora, ressaltou que não se veste como velha e isso eu já logo havia notado, usava preto acompanhado de uma jaqueta moderna de couro com alguns detalhes em flores bordados a mão, esses bordados são tendência agora, me questionei se ela acompanha as atuais blogueiras de moda, uma atitude tão jovem que vai saber ne?! Não pude deixar de notar sua orelha em perfeito estado, nunca revelando a idade, usava um brinco dourado bonito, meio pendurado e os furos do brinco intactos, mulheres mais velhas tendem a carregar nas orelhas o peso dos anos, eu presto atenção nesses detalhes bobos, que são na verdade as coisinhas que me incomodam em mim mesmo, então vou logo reparando nos outros.

Fiquei intrigada em como D. Julia aos 86 anos está tão cheia de vida e motivação. Minha avó amada, se foi aos 76 anos com pouco resquício de vida em si.

D. Julia disse firmemente apontando para a cabeça que tudo está “aqui” dentro, que não se permite sentar a bunda no sofá e se conformar com a idade e reclamar de dores por todos os cantos, disse que a idade é apenas um número, bem, no meu caso e no dela 2 números. Ela contou ter feito uma cirurgia na espinha em 2010 e em 2011 lá estava ela viajando para fora do país. Quando já havíamos pousado, ela muito risonha segurou o meu braço me puxando para perto e confessou baixinho que no ano passado comprou seu primeiro carro Sport e que gosta de velocidade, juntas rimos alto com o comentário, chamando a atenção dos que estavam a nossa volta e a única coisa que me passava pela cabeça, era o quão afortunada eu me senti por sentar-me ao lado de alguém tão otimista e cheio de vida, mesmo com uma idade tão avançada.

Quando a questionei sobre qual seria o segredo, ela disse não existir segredo e que o negócio é não pensar sobre a vida e sim agarrá-la firme nas mãos e vivê-la. Ela segurou a minha mão, me dizendo que não existe nada na vida que não possa ser superado desde que tenhamos uma boa cabeça e um bom coração e antes de se despedir pediu para que eu não viva a vida com preocupações e para que jamais a menospreze e finalizou dizendo “sempre que pensar em desistir, lembre-se desse dia e lembre-se de mim”.

Me despedi com um abraço apertado ao lhe entregar sua bolsa elegante com estampa de leopardo que gentilmente me ofereci para carregar, enquanto ela sentava-se na cadeira de rodas que a esperava no desembarque, riu ao sentar-se dizendo que a idade avançada tem seus benefícios como por exemplo não precisar caminhar até a saída, eu ri concordando enquanto a assegurei que sempre me lembrararia desse dia e do quão afortunada eu sou, por ter perdido aquele voo e ter assim, tido a honra de  conhece-la.

 

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1 Comentário

  • Resposta Jéssica Bertolla 12 de maio de 2017 em 02:06

    Essas coisas que acontecem na vida dá gente são impressionantes, é “Deus” enviando seus “anjos” pra nos dizer coisas que precisamos ouvir. Basta sabermos absorver. Obrigada por compartilhar conosco essa experiência.

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